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Schelling Mal

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Frenando Rey Puente — As Concepções Antropológicas de Schelling

A EXPLICAÇÃO DO MAL: CONCEPÇÃO TEOSÓFICA DO PECADO ORIGINAL

Enquanto Schelling havia apresentado em sua fase inicial, particularmente no texto Filosofia e Religião de 1804, a impossibilidade de uma explicação para a passagem do Absoluto ao finito, agora, em sua fase intermediária, busca uma explicação para o mal e, por conseguinte, para a finitude. Outrora a finitude (Endlichkeit) não tinha para ele nenhuma importância, pois sua existência, então, só era assegurada pela perspectiva de uma consciência decaída que, portanto, separava erroneamente o finito do infinito. Na verdade havia, naquela fase, apenas o Absoluto. Agora, como se depreende da obra acima aludida, Schelling sugere que uma explicação satisfatória da Queda do Homem só poderia ser encontrada na liberdade. Em seus primórdios, todavia, ele não havia considerado a liberdade algo tão importante a ser investigado, já que, em última instância, tanto ela quanto a finitude seriam suprassumidas no Absoluto. O ser e o pensar eram apenas um, como comprovava o conhecimento humano par excellence, a "intuição intelectual". Nessa forma de contemplação, não havia espaço para incertezas, devido ao fato de ela não ser mediada por nenhuma outra faculdade, mas ser imediata, ou seja, ela alcançava seu objetivo de modo imediato e sem qualquer espécie de mediação. Em outras palavras, a "intuição intelectual" era um tipo de conhecimento absolutamente seguro, pois ele nada mais era que o próprio Absoluto.

Todavia, agora nos encontramos em um momento totalmente diverso da filosofia de Schelling. Sua meta central no Freiheitsschrift é fundamentar "o conceito de uma absolutidade (Absolutlieit) ou Divindade (Göttlichkeit) derivada", ou seja, Schelling quer explicar o paradoxo segundo o qual a dependência do homem (enquanto criatura) em relação a Deus não destrói sua própria liberdade, antes a possibilita1 . A fim de explicar esse aparente paradoxo, Schelling pressupõe que haja uma estreita analogia entre o homem e Deus. O homem possui, como Deus, duas vontades contraditórias: a "vontade própria" ("egoísmo") e a "vontade universal" ("amor"); à diferença de Deus, entretanto, no qual a "vontade particular" só está presente enquanto "fundamento" (Grund), o homem pode inverter a relação entre esses princípios que em Deus é indissociável, isto é, pode atualizar ou efetivar o princípio sombrio que deveria desempenhar sua função apenas qua potentia. É precisamente essa atualização ou efetivação da "vontade própria" no homem que constitui a essência do mal e também causa a Queda. Aqui os paralelos com a doutrina do Pecado Original, como apresentada nos escritos de J. Boehme, são quase literais2 .

Se Schelling fala sobre a Queda do Homem, cuja conseqüência é a inversão dos princípios nele subjacentes, isto significa que havia um estado original do homem no qual estes princípios se encontravam "em uma medida e em um equilíbrio divinos". Este estado, luminoso e diáfano, pode ser concebido apenas antes deste mundo, já que com o próprio ato de instauração deste mundo nasce "uma vida falsa, uma vida mentirosa, um tumor (Gewächs) de inquietação (Unruhe) e de corrupção (Ferderbniss)".

Anteriormente já descrevemos detalhadamente os três estados do homem que Schelling expôs em suas Preleções Privadas de Stuttgart, a saber: o estado mundano (A1 do ser-do-homem), o estado pós-mortem (A2 do ser-do-homem) e o estado para além deste mundo (A5 do ser-do-homem). Nossa descrição, todavia, não foi completa, pois mencionamos apenas muito fugazmente o estado do homem anterior a este mundo (A° do ser-do-homem).

Assim como no último estado o homem se unirá a Deus, do mesmo modo eles constituíam uma unidade nesse estado primevo. A diferença entre esses dois momentos consiste em que ao fim do processo o homem se unificará conscientemente com o Deus pessoal, enquanto no princípio ele estava fundido de modo inconsciente com o Deus impessoal. Schelling entende o Pecado Original do Homem, embora argumentando ao modo do Idealismo, inteiramente em consonância com a tradição cristã, ou seja, como felix culpa. Em outras palavras, o homem ganha com sua Queda, porque é só por meio desta que ele poderá experimentar e desenvolver as diversas possibilidades que, caso contrário, permaneceriam ocultas e inexploradas. Nas palavras de Schelling: "A excitação (Erregung) da vontade própria acontece apenas a fim de que o amor no homem encontre uma matéria (Stoff) ou uma oposição (Gegensatz), dentro da qual ele possa se efetivar".

O homem encontrava-se nesse estado original no "centro" da Criação. Ele era o "Mediador" entre a Natureza e Deus. Por isso Schelling denomina o homem o "Redentor (Erlöser) da Natureza" ou o "verdadeiro filho de Deus". Nesse estado pré-mun-dano o homem era essencialmente um microcosmos. Essa "interação mágica do Homem com a Natureza" podia perdurar somente enquanto o Homem permanecesse no Centro. Caso tivesse ocorrido isso, então ele não teria podido desenvolver suas potencialidades ocultas, ou seja, não teria podido desenvolver plenamente sua condição humana. Schelling oferece-nos uma descrição sintética desse Homem Primordial: "O Homem está posto naquele cimo, onde ele possui em si, igualmente, a fonte do automovimento (Selbstbewegungsquelle) para o bem e para o mal: a junção (Band) dos princípios nele não é necessária, mas livre. Ele situa-se em uma encruzilhada (Scheidepunkt); o que ele escolher será sua ação. Mas ele não pode ficar na indecisão, porque Deus necessariamente tem de se revelar e porque na Criação absolutamente nada pode permanecer ambíguo".

Por meio de sua decisão, que na verdade foi uma decisão pelo mal, o Homem não apenas inverteu sua natureza mais íntima como também destruiu a "suave unidade" com a Natureza, dado que ele próprio era o ponto central dessa unidade. Essa ação pré-mundana formou o caráter do Homem. Schelling compreendia esse caráter — em analogia com a Proto-Essência — como uma espécie de contração por meio da qual o Homem se autodetermina de modo que nele a liberdade e a necessidade possam se equilibrar. Schelling define o caráter como sendo "o cunho (Gepräge), a particularidade de sua ação e de seu ser que lhe foi comunicado por meio de uma manifestação de sua essência". Todavia, a diferença entre a contração de Deus e a do Homem é evidente: Deus já transcendeu no ato da criação, de modo definitivo, seu egoísmo pelo seu amor, enquanto o Homem, por meio de sua contração que, na verdade, nada mais foi que uma inversão dos princípios nele subjacentes, produziu apenas um mundo invertido. Se o Homem tivesse permanecido naquele estado primordial de indecisão, então ele ainda seria o senhor da Natureza. Agora, ao contrário, a situação inverteu-se: a Natureza tornou-se senhora do homem. E seu poder evidencia-se no fato de ela tratar indiferentemente os bons e os maus, os justos e os injustos.

Não apenas a Natureza externa mas também, como já dissemos, o próprio interior do homem foi comprometido por meio desse ato primevo. Agora, por conseguinte, o homem só pode entender o espiritual quando este vier revestido do psíquico ou do útil; por isso ele busca no Estado um substituto para a unidade perdida com a Natureza. Porém, ele não pode reconstituir sozinho essa unidade. A única coisa que o homem pode encontrar por si só é a guerra, caracterizada por Schelling como o estado "da unidade eternamente procurada, mas jamais encontrada".

Por meio desse ato primevo (Urtat), o Homem deu início ao verdadeiro processo de humanização. Outrora ele vivia em contemplação, ou seja, tudo lhe era diretamente acessível, só que ele não era cônscio disso. Agora, entretanto, o homem experimenta a impotência de sua razão em face deste mundo invertido que ele mesmo produziu. Nesse estado originário ele próprio era o mediador entre Deus e a Natureza; na atual condição, contudo, ele necessita de um verdadeiro mediador a fim de reconquistar a unidade perdida. Esse mediador, porém, deve ser uma pessoa, como o próprio homem, pois, como Schelling afirmou enfaticamente, "apenas o pessoal pode curar o pessoal", isto é, "Deus tem de tornar-se homem a fim de que o homem retorne novamente a Deus".


NOTAS

1 M. Theunissen (1965) vê essa tentativa como fracassada, pois Schelling teria dissolvido, por meio dela, o caráter de criatura do homem ao custo de afirmar-lhe sua liberdade (cf. especialmente pp. 187-188).
2 Cf. J. Boehme, Sümtliche Schriften, vol. 7, Mysterium Magnum, cap. 17, p. 55: "Ele (o homem) deveria viver apenas em obediência a Deus, segundo as palavras divinas reveladas. Ele não deveria consentir (eingehen) à sua própria vontade, mas introduzir (einführen) seu desejo (Begierde) na vontade de Deus..."